quarta-feira, 5 de novembro de 2014

### DEMÔNIO SÃO ####





Assim como o sândalo perfuma o machado que lhe feri
Fui desmascarado por mim mesmo: Minha natureza é má!
Escrevejo para de-monstrar o quanto sou ruim sendo eu mesmo
Ao mínimo não mais me obrigo a esconder
O mar de egoísmo com o qual me movo, nadando a braçadas

Sou eu o cerne do meu sadismo
Ninguém tem culpa de nada
A minha crueldade é tamanha que me surpreendeu
Não reclamaria se o machado da justiça ceifasse meu pescoço

Meu espírito nunca existiu
Por mais que um labirinto de espelhos eu refletisse a filosofia vã
Acordo pela manhã sempre insatisfeito
Rezo a noite por covardia

Nunca entendi bem a preguiça em tentar ser melhor
E minha solicitude em parecer ser bom
Agora todos os espinhos se encaixam
Percebo o quanto tentei disfarçar meu podredor, meu fel, minha navalha afiada

Sou tão qual leviatã
Filho do Pai da mentira
Fraco como o fio da verdade
Que nos une a esperança do amanhã

A irresponsabilidade da vontade
Quis ser bom de coração
Pisando em delicadezas da ilusão
Mascarando o meu descuidar com quem me amou

Tudo se acabou, ao tempo que nada existiu
Nem farsa, só gélida e tácita crueldade
Para o louco o normal diz: farsa!!
O sol podia me facilitar o trabalho se suicidando

Tive tudo mesmo sendo cáustico
Vazio de sentidos e piedades
Ainda tenho medo da morte e me dou o luxo de pagar as contas
Peço desculpas e ajudo os pobres

Sinto pouca culpa
Solidão
Assino com seu sangue minha rúbrica
Bálsamo sagrado do inferno dos que nunca são



Emmanuel 7 linhas


foto: Tati Hauer 
Show Pó de Ser Emoriô / Festival de Inverno de Domingos Martins - ES 
Maquiagem: Samir Oliveira

terça-feira, 26 de agosto de 2014

# A GÊNESE DA RIMA - OFICINA DE RAP #



foto: Oficina de Rap "A Gênese da Rima" - Flexal 2 - Cariacica / ES - Coletivo Aprender Cultura


Por Emmanuel 7 Linhas


Introdução



A sigla RAP está basicamente ligada a “Ritmo e Poesia”, podendo encontrar outras definições e origens de acordo com a pesquisa e a fonte. O RAP, é  junção entre o texto e o ritmo, entre o DJ (Disk Joquei) e o MC (Mestre de Cerimônia), no que tange a compor o viés Musical principal do Movimento Hip-Hop.

O Movimento Hip-Hop é um desdobramento cultural de resistência da diáspora africana, no contexto da modernidade; reúnem-se componentes artísticos, políticos e históricos em torno da luta pelos direitos civis das minorias políticas excluídas. Tem a origem, enquanto produto cultural, atribuída ao DJ Jamaicano Kool Herc e no processo migratório dos Jamaicanos e seus “sound systems” para os guethos de Nova York durante as décadas de 60 e 70. Vale destacar que estruturas similares ao RAP, tais como repente, embolada e outros gêneros mundo a fora são bem mais antigos do que tais eventos, porém a junção do eletrônico com  um discurso político e artístico de Negros e Negras, Latinos e Latinas e outras minorias brota desse momento histórico.
É, juntamente com o Movimento Negro, um dos maiores eventos sociais de resistência da diáspora africana no Século XX, organizando luta, busca por conhecimento, ações de empoderamento, através da formação intelectual e da arte engajada.

O Hip-Hop, no Brasil, começou a se popularizar a partir da década de 80 em São Paulo, e sempre fora apresentado através de 4  braços ou elementos distintos: O Break, O DJ, O MC e O Graffiti, onde com o avanço e as especificidades da luta da periferia brasileira, tanto para melhorar suas condições de sobrevivência, quanto para se aplicar ações artísticas de conscientização para com essa luta, fez o necessário surgimento do 5º braço, O Político, atuando na orientação ideológica e produção cultural. Podemos destacar também que com o passar dos anos o movimento Hip-Hop, especificamente em se tratando de Brasil, ganhou a inserção do Cinema, da Pedagogia Libertária ou Pedahopia, da Literatura Marginal, assim como o Beat box,  enquanto importantes aspectos característicos de sua cultura.


Elementos musicais para a construção de um RAP

O RAP é um discurso rimado que se difere da simples declamação poética e do repente, por sua métrica, por seu ritmo e por sua desenvoltura, chamado “flow”.
A rima pode ter o acompanhamento de uma base eletrônica original,  um “sampler” (recorte de uma música conhecida), o acompanhamento orgânico de instrumentos musicais, o Beat box ou de quaisquer mecanismos que possibilitem a marcação da métrica da rima e enriqueçam harmonicamente o RAP, assim como pode ser desenvolvido a capela dependendo do efeito que se quer dar.
 
A Base é composta por compassos, marcada com variações de grave e agudo, mais comumente bumbo e caixa, quando uma base eletrônica, visando a cadência do flow:

a) Tum+pá Tumtumtum+pá Tum+pá Tumtumtum+pápá
b) Tumtum+pá Tumtum+pá tumtum+pá Tum+pátum+pá

Exemplo:


“Oitavo Anjo “ – 509-E:
http://www.youtube.com/watch?v=H2AUKvLlZvI


Exemplo de introdução:


“Jesus Chorou” – Racionais MC’s
http://www.youtube.com/watch?v=RVvoeWak-WM


Exemplo de RAP com base orgânica:


“Testando” – Ellen Oléria
http://www.youtube.com/watch?v=mYA43VTpxIA



Elementos poéticos para a construção de um RAP


Um RAP, por ser poesia, possui versos e estrofes em sua estrutura, que auxiliam na construção  e fixação da idéia, sendo verso cada linha do RAP e a estrofe o conjunto dessas linhas.

O mais comumente usado são as estrofes com 4 versos, onde o primeiro verso pode rimar com o segundo e o terceiro com o quarto – AABB, ou também o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto – ABAB, não sendo necessariamente uma regra absoluta.


ABAB:

“Minha intenção é ruim / esvazia o lugar / Eu tô em cima, eu tô afim / um dois pra atirar
Eu sou bem pior / do que você tá vendo / O preto aqui não tem dó /  é 100 por cento veneno...”


AABB:


“Aqui estou, mais um dia.
Sob o olhar sanguinário do vigia. 
Você não sabe como é caminhar
com a cabeça na mira de uma HK...”




Começando um RAP


Um RAP nasce da inspiração, da leitura, da pesquisa e da audição de outros RAP’s e gêneros musicais.

Algumas dicas:

1- Tenha um caderno de rimas

Tenha sempre papel e caneta a mão, a inspiração pode surgir do nada, no meio da noite, no meio da aula, no ônibus, em uma conversa; gravar no celular também é excelente, principalmente se você já tem o hábito de escrever o verso ritmado.

2- Seja sincer@ e pense profundo

Um bom RAP nasce do coração e atinge o coração das outras pessoas. Mesmo que ele tenha um viés engraçado, ou político, ou gangstar,  ele necessita ser original para ser valorizado, por isso tem que ser bem pensado (pensar é ruminar), escrito e re-escrito. Pense no tipo de emoção que você quer causar nas pessoas, e nunca, nunca utilize letras que não são suas - no RAP principalmente, é muito difícil a prática de cover, principalmente pelo fato de que cada MC tem seu estilo e o deposita na letra, além do que a maioria das letras são relatos pessoais d@s artistas, por isso muito cuidado na utilização de rimas conhecidas.

Exemplo:

Emicida – “O Glorioso retorno de quem nunca este aqui”
http://www.youtube.com/watch?v=Oe6dpYScIKE

Documentário: O Rap e a Mídia
http://www.youtube.com/watch?v=rdHJF_OfBYo



3- Pesquise

Para que alguém escute  o que você tem a dizer, você precisará trabalhar duro, ter calma e entender bastante do processo de composição de um RAP. Para escrever bem é necessário estar atento a boas idéias, ler matérias interessantes, que lhe tragam conhecimento para a sua vida e não só para a sua rima, ouvir músicas de variados estilos, principalmente com uma cabeça de compositor e não de público, pensando na intenção de quem fez  tal música na hora de criá-la. Para ser um grande poeta não há faculdade, a grande maioria dos artistas populares brasileiros do início do século XX tiravam a sua poesia do cotidiano, do dia-a-dia, mas isso não quer dizer que eles não estudavam, pois,  a maior escola que existe é a vida. Porém, nos tempos atuais você vai ser julgado pelo conteúdo e forma com o qual você escreve, por isso, ler bons livros só vai auxiliar-lhe no processo de construção de seu RAP; escutar músicas antigas, de gêneros musicais brasileiros e estrangeiros, analisando a riqueza poética de tais obras também são de grande importância; não se limite somente a audição de RAP ou escutar só o grupo que você gosta, pode fazer com que você se torne somente em sua composição uma cópia mal acabada de um grupo ou MC famoso, por isso é importante ouvir estilos e artistas diferentes. Outro ponto importante dentro do RAP é respeitar o direito do outro em manifestar suas idéias, pois o RAP surge da ausência de vozes que defendessem os excluídos, por isso, mantenha a mente aberta para outros compositores, assim também como para outros estilos. O Hip-Hop é além de tudo o grito dos excluídos.


Exemplo:

LIVRO “Hip - Hop a Lápis - Literatura do Oprimido” 


FILME “Malcom X”

http://rapnacional.virgula.uol.com.br/


4- Tenha algumas bases para exercitar seu flow

Em vários sites da internet, tais como o Youtube, você encontrará bases disponíveis para o exercício da sua rima. Baixar programas em seu computador ou procurar DJ’s, produtores iniciantes, assim como parceiros de composição também auxilia o conhecimento.
Leve em consideração a velocidade da base (bpm) em relação ao que você quer aplicar em seu RAP.



Construindo O RAP na prática



Pois bem, mãos à obra!!

Uma estrutura básica de RAP pode conter:


- Introdução
- A1
-A2
-Refrão
-A3
-A4
-Refrão

Não existe uma forma inicial para se começar um RAP, mas em se tratando de um processo de formação, pode-se tomar como referência essa estrutura básica. Um RAP pode também começar pelo refrão, como pode não ter refrão nenhum, sendo que ele deve ser o coração do seu RAP, caso seja usado.



Exercitando RAP

-Primeiro, escolha um tema. Por exemplo, o tema pode ser a cidade onde você mora;

-Defina uma frase inicial com dois versos e faça uma rima correspondente com outros dois versos, fechando a primeira estrofe;
 
“Eu moro em Cariacica / e não to de bobeira
Essa é minha cidade / Moro aqui a vida inteira”

Essa estrofe inicial não precisa necessariamente fazer parte da música, ela só vai sintetizar o tema do seu RAP, para que você possa ou a partir dela criar um refrão, ou pensar em como você vai desenvolver a sua idéia.

-Agora pense em como você irá iniciar sua letra utilizando algo que remeta a essa idéia central;

-Escreva a primeira estrofe com 4 versos;

“Cariacica, / cidade da grande vitória /Onde estão os meus pais, / meus avós, minha história”

-Leia somente a idéia inicial, como se fosse um refrão e depois leia a primeira estrofe;

Você pode ir anotando rimas que você acha que vão ser interessantes para a sua letra:

Cariacica – Itaparica – rica – fica a dica – larica
Cidade – verdade – intensidade – necessidade – variedade

-Outro ponto importante para qualquer texto desenvolvido, seja ele poético ou não é não ficar repetindo palavras ou no contexto do RAP o que é chamado de “emendas”

“se liga então”

“tipo assim”

“pode crer”

Só se esse for um artifício do seu refrão, mas no discorrer da sua letra pode deixá-la pobre.

-A partir da segunda estrofe, leia para você desde o início e fique repetindo, até ir construindo outras estrofes;

Um RAP não tem um tamanho definido, podendo ter 9 minutos de duração assim como 1 minuto só. O importante é que sua mensagem fique bem fixada.

Depois de concluída a letra faça 3 gravações de voz em cima da base, que pode ser uma base simples ou um metrônomo.

É importante procurar um DJ ou produtor experiente para dar uma escutada antes de lançá-la, assim como o intercâmbio com outros MC’s, ir a eventos do gênero contribuem.

FIM OU SÓ O COMEÇO

domingo, 17 de março de 2013

@@@@@ DIZ: HEY YO @@@@




Vou-me Star
On the
Pés Vejo (pés-ser-vejo)
Dez banjo
Téz beijo

Soul Fé, Jó
Boo(!) Che, xô
Key Yo...
...Soul Vento

The men tool
Oz Íris
Zoo
Cool paz

Jah
Che Rei Mui
To...
...Da Far (way) inha
Do Diz Hey Yo(!)


Emmanuel 7 Linhas
07.03.2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

RESPOSTA AO PROFESSOR GRIJÓ: Funk, cultura e livro




Saudações Professor!

Sobre a supra citada crônica do dia 29 de janeiro, a considero raza e com um elitismo desproporcional - o que na antropologia é chamado de "reducionismo".

"O que se costuma chamar funk" é uma das maiores manifestações culturais brasileiras, advinda de referências do R&B estadunidense, onde o carioca radicado nos EUA Stevie B  ganhou notório destaque na década de 80 com oq é chamado no Brasil de "Funk Melody", juntamente com sonoridades eletrônicas de grupos tais como Africa Bambata, entre outros, adicionados a arritimia dos tambores de candomblé e de referências de dança ancestrais crivadas na alma da diáspora africana - vejamos o Kuduro por exemplo - com as quais montamos esse mosaico chamado "Funk Carioca", "Pancadão", "Batidão", "Brasilian Afro-Beat", muito divulgado e apreciado na primeira década do novo século na Europa, através do DJ Malboro, que discotecou nas maiores casas da França, Alemanha e Reino Unido.

Atualmente o Funk carioca movimenta cifras gigantescas no mercado cultural brasileiro, gerando emprego e renda através do "faça você mesmo", com os quais os empresários do funk, assim como os do brega do Pará, trazem a tona por vias de sua própria técnica de administração d erecursos, superando o racismo institucional brasileiro e sedimentando nas periferias e também entre jovens de classe média uma das maiores manifestações populares de nossa História.

No livro "o mundo do funk carioca", o sociólogo Hermano Viana nos abre seu diário de bordo acerca da experiência de um jovem branco, de classe média, com formação acadêmica, imerso no universo dos bailes funk's das favelas cariocas da década de 80, onde destaca-se ali o olhar antropológico acerca de um movimento cultural, a partir de dentro, sentindo junto, dentro dos bailes.

O samba, a mpb, a Bossa Nova, não são  os ritmos mais populares brasileiros da atualidade, observamos a ascensão do "sertanejo universitário", o "arrocha", juntamente com o funk carioca nas listas de destaques em quaisquer festas de periferia, como também em várias casas noturnas de classe média alta.

O que é cultura brasileira??

É a cultura dos livros, das academias brancas e elitistas?

O que incomoda no funk carioca, o valor exacerbado do corpo?

Assim como o samba, a capoeira, o candomblé, o funk carioca sofre da amálgama elitista brasileira em não observar que é vã sua tentativa de tornar-nos uma europa dos trópicos. O funk é o corpo como tábua primeira, a partir da leitura de Hermano pude entender as tais "rodas de sexo" da década de 90 e os "corredores", onde jovens se dispunham nos "lado A e lado B" dos bailes, se enfrentando fisicamente, como dois exércitos. Qual a forma de demonstração de poder que pretos e pretas na periferia mais tinham fixadas em seu cotidiano? Respondo: polícia e sexo!
A juventude de periferia via na agressão ( e ainda vê) física o instrumento de poder, assim como as jovens negras com seus "cabelos de pico", excluídas dos comerciais de shampoo e das novelas da globo, davam vazão ao único espaço onde elas eram detentoras de poder pelo critério de serem exclusivas, as únicas mulheres disponíveis: o baile funk!

A cultura de periferia é a cultura popular brasileira, com a nossa classe média gostando ou não, ficamos orgulhosos em ver a nossa sexualidade sendo exacerbada em nossos bikinis e  culturas. Como o corpo pode não ser a cultura popular brasileira professor???

O corpo é a cultura brasileira - os dribles de Garrincha, o rebolado de Carla Perez, assim como o humor nordestino, a poesia paulista, a transcedentalidade amazônica - somos mosaico - e nenhum radicado fora ou então alguém de um país de Putin's onde os padres ortodoxos abençoam fuzis em suas missas podem demonstrar qualquer estranhamento sem a nossa desconfiança.

Um dia seremos um país de leitores, porém, leitores dançarinos e sexuais.

Como costumo dizer, ninguém sexta feira a noite vai para uma boate ouvir chico buarque....cada um em sua móira...

"É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado..."


Emmanuel 7 Linhas
Funqueiro, Rapeiro, Repentista, Sambista, Ator, Arteiro, Poeta e passista - Preto e Favelado: Zeitgest!!

LEIA O ARTIGO DO PROFESSOR GRIJÓ:
http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2013/01/noticias/cultura/1394775-cronica-do-dia-funk-cultura-livro.html

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Minha primeira vez...




Minha primeira vez...

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece.
Eu não me esqueci da minha.
Dizem que a primeira vez nunca é boa e você faz tudo errado.


Comigo não foi diferente.

O quarto estava morno. Minhas mãos, frias. Meu coração, quente. Minha cabeça, em parafuso.
Ela estava deitada na cama como se não se importasse com o que ocorria ao seu redor.A penumbra em que nos encontrávamos era incomodamente aconchegante. A luz do sol passava em feixes pelas frestas da janela formando pequenas linhas de vida que cortavam o recinto. Dois desses feixes alisavam aquele rosto pálido e aveludado que descansava em cima de um travesseiro. O lençol a cobria até a cintura, guardando delicadamente cada centímetro de suas pernas. Apenas seu rebelde pé esquerdo repousava de forma graciosa para fora das cobertas. Me aproximei pelo lado da cama de maneira tosca. Meus braços pareciam pesar 50 kg cada. Minhas pernas tinham vida própria. Eu não coordenava meus movimentos. Meu olhar era fixo, como o de um leão prestes a atacar sua presa.

Já ela demonstrava ter total controle da situação. Um olhar vago, meio despreocupado, de certa forma até pretencioso. Focava o horizonte, fingia não me perceber ali. Por um momento nossos olhares se cruzaram. Não foi preciso dizer uma palavra. Ela precisava de mim. Eu fui.

Como qualquer iniciante, queimei a largada. Avancei com voracidade. Subi na cama me apoiando em meus joelhos. Antes que ela pudesse reagir abracei sua roupa com as mãos. Como um lobo voraz abocanhei o meio de sua camisa com os dedos. Em um único puxão, abrupto e seco, libertei seu peito daquela prisão. Ela não usava sutiã. Os bicos de seus seios me encaravam perdidos. Mal sabiam eles que estávamos juntos.

Era chegada a hora. Por 5 dias eu a massageei. O relógio contou apenas 10 minutos, mas eu sei que se passaram dias. Meus braços não se suportavam. Meus ombros estavam castigados. Ela pareceu desistir de mim. Durante todo o tempo não reagiu às minhas investidas. Eu falhei.

E assim a vida se foi, como um assovio inocente em meio a ventania...

O monitor cardíaco, que repousava ao lado da cama, registrava ZERO batimentos por minuto. Uma linha vermelha e reta cortava a tela soltando um som contínuo que teima em não sair da minha cabeça. Ele me dizia o óbvio, escancarava-me o fim. A RCP - reanimação cardiorrespiratória - ou como dizem por aí, a massagem cardíaca, não surtira efeito. As enfermeiras, que me auxiliaram, cederam-me dois tapinhas nas costas. Não há nada mais humilhante do que os malditos tapinhas de consolo nas costas. Pareciam ser tiros de misericórdia adentrando meu peito. Rasgavam-me o tronco como um chicote de um senhor de escravos.

Minha vergonha era lancinante. Ela, por outro lado, parecia não se preocupar. Desde o início mantivera aquele mesmo olhar de desapego. As enfermeiras cobriram seu rosto com o lençol. Era o fim do espetáculo. As cortinas se fecharam, e não houve sequer um aplauso.

Saí do quarto. Tirei meu jaleco. Ele estava limpo, alvo, impecável, nem parecia ter me coberto durante o pior momento da minha vida. Alguns chamam médicos de Anjos. Hoje fiz uma entrega para a morte. Naquele quarto duas pessoas tinham perdido a inocência, a diferença era que uma ainda continuava com o coração a bater. Segui torto pelo corredor do Hospital. Era hora de ir embora. Era hora de fumar um cigarro.

José Vitor Rassi Garcia

http://www.camarabrasileira.com/euv12-021.htm
(Via José Vitor Garcia)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

DESUMANIZAÇÃO - Por Maria Regina Alves


As pessoas simples, da vida, não estão inclusas na sociedade do consumo e da imagem. Não usam Prozac nem plástica; não buscam a felicidade intermitente e a juventude eterna; não calam suas vozes internas e expõem seus mais íntimos desejos e fraquezas.
Vivem sem descartar pessoas, simplesmente, como um aparelho de tv. Choram o que precisa ser chorado, riem de si mesmos, falam sem a lança nas palavras e sonham... como se cada sonho lhe oferecesse a possibilidade de existir mais de uma realidade.
Estar out-side virou sinônimo de invisibilidade, principalmente quando não somos “merecedores” dos cartões de crédito, das milhagens... tudo que nos leva direto ao objeto de desejo forjado pelo triângulo capital-mercado-propaganda.
Cabe aos meios de comunicação criar necessidades, já determinadas por um grupo invisível, particular e limitado - formam a seita do capital, e lançar uma cortina de fumaça, através da espetacularização da vida.
A democracia é ficção, sendo o essencial ter e construir sem critério, bastando ser “digno”, “escolhido”, exercitando baixa criatividade e alta voracidade frente ao que determina o marketing.
Hoje temos o isolamento dentro de manadas, ou seja, mentes e corpos feito ilhas, porém buscando a visibilidade, ser imagem aos olhos do “outro”.
Um comportamento de exacerbação do narcisismo, declínio de valores e necessidade de eternização, mesmo sem qualquer fim justo. Apenas a continuidade de um espetáculo que duvido ser da vida.



Maria Regina Alves

TANTA GENTE - Por Dieymes Pechincha





  • É da roda, da ciranda, da corda, do boi, da dança.
  • Que samba, criança, que pula, que gira, que ri.
  •  
  • Menino criado descalço,
  • De dedo esfolado, de unha encravada,
  • Mão suja de terra, sorriso com todos
  • os dentes (os que tem, e os que virão.).
  •  
  • Um bolso que mais leva brinquedo
  • que lápis.
  • Uma bolsa com todos os grandes inventos.
  • Pião, Bola, Gibi, Balas... Balas... Balas...
  • Catava café, pra ajudar... 
  • Ganhava um trocado, final de semana.
  • Balas... Balas... Balas...
  •  
  • Vendia manguitas do quintal.
  • Comprou colete pro futebol.
  • Era o reserva, que foi pra final,
  • entrou no finzinho...
  • Que foi pros pênaltis.
  • Bateu de bico, fez GOOOOOL!!!!!!
  • "UFA!"
  • Não foi dessa vez.
  • Dedão latejou, inchou, até hoje dói.
  • Depois da final já foi titular.

  • Viajava pouco. Gostava das moças.
  • E nunca entendia por que "só amigos".
  •  
  • Melhores amigos... São muitos!
  • Irmãos, daqueles que só se conta, 
  • e só se percebe quando é pra
  • saber perceber.
  • Aos montes, e ama todos, beija,
  • abraça, morde, leva pra casa.
  •  
  • Poucas vezes se encontram.
  • Mesmo assim estão juntos, ali,
  • em algum lugar abstrato,
  • subjetivo, in-concreto, porém, real!
  •  
  • Inimigo?
  • Um!
  • E ele um dia cairá.
  • Enquanto o dia não chega, estudemos,
  • Mas ele um dia cairá.
  •  
  • Estudar... Entender...
  • Tanta gente contribui pra isso.
  • Tanta gente que nem tem isso.
  • Tanta gente pra ser ouvida.
  • Tanta tarefa pra ser cumprida.
  • Tanta gente num só umbigo.
  • "Tanta mente", tanta mentira.
  • Tanto sorriso amarelo.
  • Tanto medo de amarelar.
  • Tantos "tantos" aqui dentro.
  • No entanto, tanta gente de fora.
  •  
  • Gente da roda, da ciranda, da corda, do boi, da dança.
  • Que sambou, criançou, que pulou, que girou, que sorriu.
  •  
  • Que também foi criado descalço, de dedo esfolado,
  • unha encravada, mãos sujas de terra, sorrisos, sorrisos,
  • sorrisos...
  •  
  • De bolsos lotados de bolinhas, catavam café, catavam vento.
Cadê?
  • Quem foi pra final levou o troféu.
  • Tanto, tanto, tanto.
  • Tanta gente lá fora.
  • Tanta potencia.
  • Tanto universo desconhecido.
  • Tanta gente interrompida.
  • Tanta gente interrompida.
  • Tanta gente... 
Dieymes Pechincha