sexta-feira, 31 de maio de 2019

CANSAÇO






CANSAÇO

Disfarço o cansaço
Ser de aço o tempo inteiro
A farsa do sorriso fácil
Pois rir de tudo, tão somente é desespero
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A realidade demonstra:
Espelho quebrado
Sadismo intermitente
Esperança ladeira abaixo
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O conto da pressuposta racionalidade
Por entre análises de filósofos estatais
Vivaldinos colossais
O evangelho segundo o marxismo
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Desprendo-me do kardecismo
Do messianismo pseudo-progressista
O personalismo autoritário
Com gotas de teologia da libertação
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Ontem vi na tevê:
"Dotor, como um preso pode contribuir para libertar o carcereiro?"
Sigo cansado de ser enganado por figuras beatificadas
O lobo em pele de cordeiro bebendo o sangue do negrinho do pastoreio
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Choro por dentro,
Ao ver os poetas inúteis do meu povo preto ao relento
Queria pagar-lhe os dez reais que lhe devo
Gostaria de ver nossas crianças desenvolvendo outros "talentos"
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Está tudo dentro do plano
O caixão do pobre aguardando o buraco
O coturno diurno
Que aguarda para subir a rampa enquanto tirano
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E enquanto a noite não vem
Vejo o pouco que me cabe
Nesta nave de um texto insólito que,
Ecoa solitário, insípido e cético sobre a linha do trem
Da despedida.
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7L

quinta-feira, 28 de março de 2019

====COSTELAS À MOSTRA====



====COSTELAS À MOSTRA====
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Pessoas caos-paisagem
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Ex-sonhos estacionados nas calçadas
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Obstáculos à meritocracia da modernidade
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Escape ao princípio da eficiência
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Enquanto deus-carro repousa em confortável garagem
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Recicle o ciclo:
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Plástico, vidro
E do orgânico as sobras do almoço
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Acalme o karma:
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Pessoas caco-estáveis
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Sopros frágeis em descartáveis embalagens
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Homens-mulas pelas ruas cruas
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Puxando carrinhos de re-cicláveis
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Onde,
Com suas super capas de invisibilidade
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Expõem o odor da dor e as costelas no lugar,
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Abstraem o asco,
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Dividem com o cão o osso
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A existência dupla fenda sem abas:
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Kant´s quântico!!
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O artistatleta pulou do pódium para a publicidade
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[TROCO LIKES]
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Hip-Hop-Rip
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Hippie Hippie Urra (?)
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Na tv,
O acalanto dos craques é a bola
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Na sarjeta,
O acalanto dos miseráveis é a bola no crack
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Hedonismo primata
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Luciferanismo selvagem
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Egocentrismo de boas intenções
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Darwinismo cristão
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Criacionismo Ltda
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Exú é o nilismo nu, o espelho em comunicação
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Gabiru de Nibiru
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Carcará pousa em Igigi
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Anu pai de Adamu
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Achei as tábuas dos Sumérios no banheiro de um buteco em Tabuazeiro
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Estiquei um "Da penha" e dei um teco
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Perrela sem remela
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Nunca trava a porta giratória do cemitério
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Sr Psicopata Tropical no que está pensando??
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- Mulheres e crianças de uniforme primeiro!!
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A esperança é uma bala bombom
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Contra o cidadão sem bem
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E a milícia tradicional brasileira
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Lugar onde nem soldado faz sentido
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Pior é que por estas bandas nem o mal se aposentará!!
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Cristo Redentor coloque as mãos onde eu possa ver
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Vidas de papelão em dias de dilúvio
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A netflix é o neo-vaticano
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Mídias Puta Midas Luta
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Abominável Mundo Louco
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Me dê um MD!!
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No interím, a crença global na supremacia branca, escravos diferenciados
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Reptilianos não comem veganos
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Greys não pagam dízimo com pic pay
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O novo testamento é Jah sob nova direção
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Ausculto o crepúsculo com o machado de Xangô
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Nascer no Tibet não me torna sambista, tão somente tibetano
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O diário da besta é a chuva de idiossincrasias dos degenerados em 150 caracteres
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O chicago boy não superou sua síndrome do fálo de pequenas dimensões
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Moro?
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O guru espiritual-histérico do "novo brazil" esfaqueou Tales de Mileto pelas costas
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Qual o problema com a água de Curitiba??
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Aos trancos e barrancos quem tá semi-vivo não diz-cansa:
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Quem mandou matar Marielle Franco??
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Imagine Adélio vizinho de Lula, responde ou pula??
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À longo prazo:
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Chuveiros elétricos para resfriar a água
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Bebendo "urina retornável"
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Comendo bifes de fetos
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Enaltecendo fatos de farda
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E frango fake de soja
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Seremos velhinhos de rua, essa é a parada,
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Deus dinheiro
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Alma merda
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Vida privada
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Chegue mais perto...
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...Não, não é Niestzsche ou Leminski,
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É só um pouco de esquizofrenia, Waldo Mota, Fernando Tatagiba, Marcos de Castro e Franklin Neto!!
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Emmanuel 7Linhas

HAMURÁBI-SE



HAMURÁBI-SE

O amor não traz felicidade
A mentira é a mais pura verdade
Sorrir só se for por maldade
Como saio da cidade?

Me dê um cigarro,
Um coro, um sarro
Vozes moram na minha cabeça

Enalteça
Obedeça
O compêndio pelo assédio
Tédio ou inteligência?

Almoçar com dinheiro é fácil
Quero sua alma sem ágio
Eu ajo e vc paralisa
Escrevi com sangue em sua camisa: PLÁGIO!

É dançar
É arder
Ins-pire, trans-pire

Saber morrer por inteiro
De janeiro a janeiro

Comer-ser
Cagar-ser

Um ser humano completo
Um ser humano morto

A realidade é virtual
Babel hi-tech

A Ilha de Santa Cruz
Tornou-se SanAndreas

Mileniuns
Self-Slave
Generation

Pindorama:

[Velho Testamento Mode On]

Providência para o golpe à Previdência:
Hamurábi-se quem puder!

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CORTE PARA OS COMERCIAIS
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Capitão caverna e seu (s) filho (s) caverninha (s)
Hienas sádicas
Laranjas do mecanismo

Diga-me a quantas andas teu sacrifício
Que eu te darei um orgasmo frictício...

Um espasmo de sagacidade...

Um suspiro sujo by Franklin...

A ré-evolução virá através dos likes
Um beauty story para o instagram
A indignação dura a atualização da timeline

A 3ª ponte mais uma vez fechada
A dor da existência atrapalhando a passagem
Sob a paisagem, gritos de ódio e incentivo
Entre Vitória e a Velha Vila o trampolim ideal para o suicídio

E vejam só, que ironia,
Chama-se Espírito Santo
A terra do feminicídio!


7L

22.02.2019

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

PÓS - FLORIR

# DITIRAMBO 01 # Pós - Florir Letra: Emmanuel 7Linhas Base: Bob Marley & The Wailers - Sun Is Shine Arte: Marcio Vaccari Captação e edição: Arthur Sant'ana Santos Pós - Florir Perecer sem parecer Pós-florir é murchar O filho da mãe Tentou ser pai Ser man, sem a mente Como diria Ivonei Frainer Tipo melancia: Semente demais!! Sem hora, sol lhe dão Nesta roleta preta Dá-me dá-me dá-me dá-me o estilingue Neste ringue ampulheta Já fui porteiro, mecânico, professor e auxiliar de produção Já fui ajudante de pedreiro, alfarrabista, compositor-cantor-ator-bailarino Na dança da solidão Cavalheiro ao puxar a cadeira, Mas já puxei até o tapete Cadeia não! Já cheirei pó e os pingos de chuva no chão Já fui onda do mar Fui pedra do rio Já fui os raios do sol O uivo do vento A voz do trovão Já roubei beijos e sonhos Parti corações partidos Já ri na cara da morte Já me escondi da vida debaixo de cama Já durmi no meio da festa Já acordei em cima do palco Amei-trai Sub-cresci Desci pra cima Fui Iara, Alice, Helena, Mayrianne, Luizas, Lani, Zenaides, Maria do Carmo Dalva, Dona Aurélia, Tia Maria Dona Carol, Dona Tereza, Dona Alba, Dona Conceição, Minha amada Florisbela, Ana Carolina Nasci na baía De Vitória Sou cria da Mesquita Amadureci na São Francisco Mergulhei na lama Estudei na Glória Conheci meu avô no kitungo velho Fui à mugumba Tenho nome kardecista Batizado na católica Visitei os evangélicos Mas meu negócio é a macumba Fui poesia de escárnio Rap de protesto Congo visceral Fiz samba e tive banda Hoje transito às luzes da ribalta Um erê-exú astronauta Dos Santos de Aruanda!


7L

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

CAMISA DE FORÇA



CAMISA DE FORÇA

Os pretos vestem luto
Com um alvo, suas costas pintadas
O diabo veste farda
Meninos de rua vestem sarna
E a blusa de uniforme das crianças no rio de janeiro são vermelho sangue
The Mister Stupid White Man e sua gangue
Com a camisa da cbf amarelada
Vão às ruas protestar, junto à sua esposa e suas crias,
Acompanhados de uma negra vestida de escrava
Vermelho e preto também veste os pretos da urubuzada
A democracia com sua camisa de força
Enquanto Tupã veste-se de Oxóssi e urucum
São Jorge capa, armadura e espada
Mas não se iluda com a banda que veste branco
Nem com a moça com uma rosa vermelha na orelha
Parada na encruzilhada
Por dentro quem lhe veste é Ogun


7L

domingo, 23 de dezembro de 2018

INFERNO









INFERNO

Nas profundezas do inferno em que ergueu-se minha solidão, mastigo com os dentes podres de minha boca aquilo que ainda resta de minha alma

A pouca poesia que habita em mim alimenta-se, tal qual um verme em minhas entranhas, de todas as dores que me permeiam as lembranças

Lúgubre, tornei-me o que mais temia: Um pobre diabo inflamado pelo rancor

Tecem meus passos tão somente o sedutor atalho para o abismo

Não há em mim nada mais que me interesse

Incendiarei minha casa antes de partir e através das chamas flamejantes observarei queimar tudo aquilo que nunca foi meu

Arrancarei minha pele para afogar-me no álcool

Furarei meus olhos antes que nasça o sol

Com meus pés descalços, por entre brasas, arrumarei minha cama de deitar

Não doarei meu ódio gratuitamente e nem gastarei tempo demais com pequenas vinganças

Toda depressão, toda tristeza, todo luto reúnem-se em mim

Arrancarei meu coração com as próprias mãos e ofertarei aos cachorros de rua

Tal qual o ladrão que visita sempre à madrugada, me farei presente por entre pesadelos

Um calafrio, um arrepio invadirá teu corpo toda vez que tua mente formular-lhe minha imagem

Nas margens dos círculos da miséria erguerei um templo de dor, onde tão somente assassinos de sonhos a entrada será permitida

Matarei meus filhos no parto

Enviarei meus pais ao exílio

Não terei pátria, muito menos destino

A fome será minha companheira

A morte deixará de existir

Todos os meus dias serão noite

E nada que você venha a fazer poderá me impedir

Estaremos juntos, eu e meu pior inimigo

Pintarei um quadro entre soluços e cólicas

Não canalizarei meu sexo noutra identidade

E assim quando encontrar-me totalmente só, sem referências, sons e ou poesia

É que poderei medir a distância da sua vida e a minha

sábado, 22 de dezembro de 2018

NOITE DE QUINTA




NOITE DE QUINTA

As ruas provincianas, com seus lares provincianos e suas famílias provincianas da pacata Vila Velha, nas noites de quinta-feira, são por demais silenciosas. Há de se sentir um cheiro esquisito a cada esquina, uma mistura de medo, mistério, beleza e morte por entre as escuras ruas da cidade.
Parto na missão de tomar uma cerveja na baixada. Um pálio maltratado, vidro fumê, farol baixo e andando bem devagar me cruza na encruza. Sigo olhando reto, peço licença ao Senhor dos Caminhos, à noite não se pode sair pra perder.

No bairro vizinho, numa rua bem iluminada, uma bela árvore e suas lindas flores amarelas expõe sua beleza à lua, que está já quase cheia. As bandeirinhas da última copa, bem desbastadas, ainda encontram-se penduradas em seu comprimento. Cruzo a avenida, entro num bar em Jardim Colorado, apelidado mui maldosamente como "Bar da Sapatão". Ela e sua companheira atendem de forma simples, mas honesta, alguns apreciadores de "porcarina" se aportam por esse estabelecimento. Compro um maço de gift, acendo um cigarro e vaso fora dali.

Corto Vila Nova até chegar à praça de Santa Mônica Popular, onde encontra-se um grande campo de grama sintética, a praça é ampla, bem frequentada durante o dia, mas com um estranho e pequeno movimento nesta noite de quinta: "Será que mataram alguém?" - logo penso. Em uma das esquinas da praça está o inusitado "Bar Titanic", que carrega este nome, para além de remeter ao famoso navio, pois tal "homenagem" associa-se a uma característica arquitetônica do prédio onde se encontra: A lateral do bar está literalmente afundando!. Estaciono em uma das mesas, do lado de fora sempre, o garçom é um cara gente boa, interado, a música é boa, rola uma sessão de rock internacional e funk americano dos fins dos 70 / início dos 80. Elogio o som e o garçom me diz que no meio da semana existe essa possibilidade, pois, segundo ele, nos fins de semana é o sertanejo bregão que comanda. Manifestamos o acordo de que a trilha sonora de quinta é uma tortura chinesa a menos, fico pensando nos pobres vendedores de lojas de eletrodomésticos, deveriam receber insalubridade.

Virando a esquina, meu parceiro Tiaguim com sua bike velha, o interpelo, e ele me diz que estava indo pra casa. O convido a sentar e dividir uma breja, meu plano de beber sozinho foi quebrado, ele aceita, encosta a bike e senta. Tiaguim é um cara bacana, sempre pra cima, um bom músico que se sustenta com seu artesanato nas praças e feiras - nada mais capixaba!. A base do seu artesanato consiste em uma bicicletinha feita com cabos reciclados, bastante apreciada pelos turistas e frequentadores dos espaços em geral, além de ser um bonito porta-retratos. Geralmente quando vou expor meu acervo de livros usados na praça de Gaivotas Tiago está por lá, aliás é um ponto que ele conquistou na marra, já há algum tempo. Nem sempre você é muito querido trabalhando nas ruas, principalmente em se tratando de dois, pretos como nós.

A conversa vai se dando por trivialidades do dia-a-dia, Tiago me conta que expôs nesta quinta na Praia da Costa, o calçadão dos bacanas da cidade e onde o povo em geral vai dar um rolê maneiro com a família nas noites do verão canela verde. O movimento estava fraco, ele diz, e conta também que na quarta teria sido melhor, parece que por causa da nobre visita do papai noel - "tradição esquisita essa nossa" - eu penso. 

Logo na sequência, como todo bar de perifa, as mesas começam a dialogar entre si. Um maluco com uma cara esquisita, senta bem próximo a nós, tem cara de cana: novo, camisa pólo, calça. Acho esquisito. Depois interagindo descubro que na verdade é o contrário: É bandido. Inevitavelmente a conversa vai parar em política. O maluco esquisito é Bolsonaro, eu sou eu, Tiago não é de se aprofundar, mas sua tendência é de esquerda, o garçom bem antenado não é de fazer concessões, é perspicaz e bem informado. No decorrer da discussão, lá da ponta direita, em uma mesa com duas loiras sentadas tomando uma breja, uma delas grita, aliás a mais gata: "Eu adoraria ir pra Cuba!". Eu penso: "Ufa, minha noite está salva!". 

A conversa segue animada, agora eu diria ainda mais. O bolsominion se cala, percebeu que além de desinformado é minoria. Fora do campo virtual eles costumam abaixar a bola já no terceiro corte. A mina é bacana, gente boa, rua e filiada ao PC do B, eu quase me apaixono. Sua amiga é um pouco mais velha, pela casa dos 40, porém também bonita e gente boa, já de cara nos informa que é lésbica. Vou ao banheiro, aliás a mijada mais arriscada da minha vida, vai que essa porra desaba? Quando retorno as loiras convidam a mim, a Tiago e a um outro parceiro que tinha colado ali com a gente para juntarmos as mesas. Elas são realmente bacanas, butequeiras, a conversa fica cruzada, a loira mais gata diz que não é feminista, pergunto sobre Manuela D'Ávila, ela diz que a admira muito e começa a elogiar vários aspectos da personalidade e da luta política de Manuela, de como ela concilia bem sua luta com a maternidade, o que para mim me soa bastante feminista da parte dela. Passo a interagir mais com a lésbica, a loira gata comunista fala bastante, em alguns momentos um pouco autoritária, nada grave, dou um corte de leve. O dono do bar resolve nos expulsar e resolvemos caçar outro buteco. Os malucos da mesa ao lado, que tentavam também interagir com as loiras, porém mais na conversa fiada com vistas à maldade, se levantam e resolvem ir com a gente. Eles estão de carro, convidam as loiras, elas resolvem ir a pé com a gente, ganharam meu respeito. Mas no caminho pro bar uma cena meio louca por parte delas: As minas ao começar a caminhar com a gente passam a xingar de longe o bolsominion. Parece que o cara tentou roubar o celular de uma delas, porém ela conseguiu recuperar o aparelho que tinha esquecido no carro dele quando saíram com amigos em comum. Tiago vai à frente de bike pra ver se um determinado buteco está aberto, o parceiro que está com a gente fica aguardando com a loira, eu e sua amiga lésbica andamos em direção a Tiago - começo a perceber que a lésbica não é tão lésbica assim. Bar fechado, a gente segue para o famoso "Bar Escritório", indicação da loira gata mais nova.
No caminho, vejam só que maravilha, uma dor de barriga filha da puta desata de uma hora pra outra e a porra do bar tá muito distante. Dou um quebra de asa na galera e encontro um terreno baldio com uma bananeira, estou salvo!

Chegando no bar, vou ao banheiro lavar as mãos e na volta percebo que apesar das minas serem maneiras, já tinha gasto uma grana boa no titanic e a cerveja no escritório não é muito barata não. Enquanto no Titanic o litrão de brahma é 8,50 no escritório uma verdinha é 12 conto 600 ml, bar de playba, e aliás só tinha playba no bar, de vez em quando alguns marombeiros resolvem se beijar por lá. Tiaguim deu um migué e saiu fora, nem deu idéia as loiras, pediu pra eu deixar um abraço. Eu apesar da conversa bacana das minas, não tava a fim de sentar no bar dos playba com os parceiros que foram de carro, que estavam é na fissura pra cima das minas. E eu ali com grana curta no meio do rolê com essa galera, pois como diz Mestre Eduardão, malandragem fonsequiana da Mesquita Neto no Santão: "Homem duro fede e reza pra chover!!". Declaro as minas a minha falência, elas pedem que eu fique, sugerem segurar a bronca: "Um dia é você no outro sou eu" - mal sabem elas que todo dia sou sempre eu. Eu também não estava na vibe de entrar nessa bola dividida, agradeço e meto o pé na caminhada fresca pela madrugada.

Mas não saio com o rabo entre as pernas não, a loira gata me deu seu número, pediu pra eu ligar pra marcarmos outro rolê. Fora também que pelo início da conversa no bar lá atrás os caras vão ficar é no zero a zero, as minas são firmeza, o caô ali tem que ser forte. Será que é meu número?